sexta-feira, 25 de junho de 2010

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar

Este post é dedicado à minha queridíssima irmã. Embora distante, não por isso menos amada

Também é deste modo que o destino costuma comportar-se conosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro.

Esse é mais um caso em que as palavras viram contra o escritor.... O trecho é de “O conto da Ilha Desconhecida”, um dos mais belos e enigmáticos da carreira de José Saramago, um ateu que entendeu a vida filosoficamente, mais do que ninguém, até o seu último suspiro.

O escritor português era um dos maiores nomes da literatura contemporânea, vencedor do prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998 e de um prêmio Camões - a mais importante condecoração da língua portuguesa. E, há exatamente sete dias, foi silenciado pelo destino, o único antagonista da vida e do próprio homem.

Dentre as produções mais elaboradas de sua carreira, “Ensaio sobre a Cegueira”, “O evangelho segundo Jesus Cristo”, “Memorial do Convento” e o mais recente “Caim”. Todas permeiam a essência da condição humana, representam o homem diante do dilema mais cruel e doloroso da vida: o existencial.

Mas é em uma das suas histórias mais simples e curtas, na minha humilde opinião de leitora, que o escritor vai mais a fundo na descrição do que todo homem deseja e espera da vida. “O conto da Ilha desconhecida” traz como personagem principal “o homem”, um homem qualquer que empreende uma busca obscura, porém necessária, que reflete a natureza de toda a humanidade.


E, talvez, seja exatamente esse o intuito de Saramago ao não usar nomes para seus seres de papel, referindo-se a eles apenas por alguma de suas características físicas ou psicológicas, na tentativa, talvez, de permitir que o leitor se identifique com eles e possibilitando que cada um de seus personagens pudesse vir a ser a representação de cada um de nós.

“O conto da Ilha desconhecida” é uma crítica justamente à ideia de que os seres humanos nascem fadados a um dado destino previamente definido, se tornando impotentes diante do mundo e se conformando com o que a vida naturalmente lhes proporciona. A narrativa nos impulsiona a buscar o desconhecido, a enfrentar nossas limitações e tomarmos as decisões que possam dar sentidos diferentes a nossa existência, caso sejamos capazes de ultrapassar toda a moral, normas de conduta e pré-conceitos que nos rodeiam.

E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar.

Saramago entendeu em seus 87 anos de vida, que “todo homem é uma ilha”, na medida em que cada ser encerra dentro de si algo de essencial que o torna único e inigualável. O escritor compreendeu também que “é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós”. À revelia do destino, na vida, estamos sujeitos a uma série de embates com o status quo, com o estado consolidado das coisas. O mérito da existência humana vem da resistência às adversidades.

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então, sabemos tudo do que foi e será.

porque

Todos sabemos [ou pelo menos deveríamos saber] que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.

A Ilha Desconhecida que tanto procurava o “homem” do conto de Saramago, na realidade, o tempo todo, estava no interior dele próprio. O desafio maior da personagem era o de dar sentido à própria existência e conseguiu concretizar esse desejo ao enfrentar o seu próprio destino e não sucumbir aos perigos e riscos que poderia sofrer ao mergulhar na aventura de um novo amor.

É preciso variar, se não tivermos cuidado a vida torna-se rapidamente previsível, monótona, uma seca...


E para um sábio homem que concebe a verdade de que “viver sozinho é um duríssimo castigo”. O que está implícito na moral da história do grande escritor português é claramente expresso por outro, não menor, representante das letras brasileiras, João de Guimarães Rosa, que, em "Grande Sertão Veredas", diz: “Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tiver amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura”.

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Para ler a íntegra de “O conto da Ilha Desconhecida”, clique aqui.

Outros pensamentos de José Saramago em Pensador.Info.

Grande Sertão Veredas, está disponível aqui.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Passeios pelos bytes da ficção

Começa a escurecer e a penumbra toma conta do ambiente, o que me faz apertar os olhos diante da claridade do computador. Chove lá fora e todos já foram embora. Estou sozinha no escritório. Ouço passos. Rumores fugazes no corredor. Olho para trás, mas não vejo nada. Atribuo os sons à minha imaginação fértil, porém cansada, e, volto ao trabalho. Em seguida, sinto algo tocar em meu ombro...

- Aaahhhhh!!!


Mentira, isso é mentira.


Na realidade, estou forçosamente em uma sala de reunião. O assunto em pauta é sacal. Cada minuto completado parece uma eternidade. Olho o quadro com uma paisagem bucólica pendurado na parede e me imagino entrando na tela, navegando num mar de tinta, rumo ao pôr-do-dol.


Mas isso é outra mentia.


Na verdade verdadeira, estou em meu quarto, com uma caneca de café. É dia claro e escrevo no meu blog, enquanto deveria estar lendo uma pilha de textos para o Mestrado. Entretanto, quem garante que a cena é realmente essa?


De fato, estou em frente ao computador, mas não bebo café...


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Ultimamente a vida não tem sido interessante o bastante para render posts. O dia-a-dia comum, o ordinário. Eu poderia inventar coisas e entreter meus leitores com a boa e velha ficção, mas eis que minha imaginação não é tão fértil assim. Como diria Umberto Eco, "os mundos ficcionais são parasitas do mundo real" (Seis passeios pelos bosques da Ficção. cia das Letras, 2004).


quinta-feira, 1 de abril de 2010

1/4 de século

Depois de muito tempo, hoje, olhei pela janela e vi a grama mais verde, viva, e não seca. Os campos floresceram. Após muitos anos de inverno, cheguei na prinavera de minha vida e, neste dia tão especial, completo 25 anos... Kkkkkkk, fala sério!!!!

Parece até piada de 1º de abril, porque, quem me conhece sabe que eu sempre odiei fazer aniversário. Ficção ou realidade, o período da data do meu nascimento, muitas vezes, representou para mim um verdadeiro inferno astral.

Mas é verdade que, dessa vez, não estou tão abalada por estar envelhecendo. Ainda que a força do hábito me obrigue a lamentar um pouco e arrepiar com o agouro do azar que já me fez adoecer, pegar chuva e ficar no prego na estrada quando deveria estar ganhando presentes e "parabéns pra você", sinto-me feliz.

"O futuro não é mais como era antigamente", como diria Renato Russo. Atingi alguns objetivos, realizei alguns sonhos e a vida, enfim, se tornou mais leve. Certas pessoas dirão que pode ser culpa do amor, outras diriam que estou amadurecendo, ou quem sabe, ambos os motivos.

Continuo com medo de envelhecer, a solidão ainda me assusta, outros sonhos permancem por realizar, mas, esse ano, decidi tentar a técnica do pensamento positivo: "mentalizar coisas boas atrai coisas boas". E assim pretendo levar minha vida deste 1/4 de século em diante.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Queridos leitores

Em mais um episódio da minha recém-renascida vida acadêmica, passei por um aprendizado valioso que não poderia deixar de compartilhar. Se você adora ler e devora qualquer tipo de literatura sem amarras ou preconceitos, cuidado! Não afirme isso em público, principalmente se a platéia for formada por pseudo-cults ou criaturas que tenham um currículo lattes maior do que o de Sócrates, Platão ou Aristóteles, sob pena de ser tachado como portador de uma intelectualidade vaga e superficial.

Definitivamente, Paulo Coelho ("O Alquimista"), Dan Brown ("Código da Vinci") e J. K. Rowling ("Harry Potter"), são os autores com quem você jamais pode admitir qualquer tipo de relação, pois, piores que os best sellers, somente os livros de auto-ajuda e os romances estilo Júlia e Sabrina. Isso pode custar a integridade de sua inteligência e olhares acusadores que transparecem a dúvida se você ingressou no mestrado por mérito próprio ou devido a favores de terceiros.


Aqui, só entre nós, confesso que pequei e várias vezes já me deleitei, me diverti e chorei com as páginas de alguns dos livros que constam a lista dos mais vendidos. Não me orgulho disso, mas também não me arrependo, porque qualquer leitura é válida. Mesmo que não possa acrescetar conteúdo profundo e blá, blá, blá, pelo menos permite desenvolver a capacidade crítica e, a partir daí, a possibilidade de amadurecer e refinar o gosto. Na minha opinião (que os teóricos e professores não me leiam!), literatura boa ou ruim é uma questão de ponto de vista.


Depois da fase da Turma da Mônica, da Revista Capricho e dos jornais de domingo, comecei com Paulo Coelho (não contem pra ninguém), e, aí, percebi que as leituras obrigatórias do ensino médio não eram tão ruins assim. Pelo contrário, notei que, perto do mago, Machado de Assis, Eça de Queriroz e até o Guimarães Rosa foram verdadeiros gênios.


Foi assim que me tornei uma ávida leitora de clássicos, tão valorizados pela academia. Isso não me impede de dar uma escapulida de vez em quando à lista dos best sellers. Ainda que tais leituras não mudem a minha vida, é possível encontrar entre elas um ou outro talento promissor que garanta emoções fugazes e horas agradáveis de solta imaginação.


A seguir, uma lista com os livros que mudaram a minha vida, não necessariamente nessa ordem. Alguns são clássicos, outros nem tanto assim.


1 - Cem anos de solidão - Gabriel Garcia Márquez

2 - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

3 - Dom Casmurro - Machado de Assis

4 - Primo Basílio - Eça de Queiroz

5 - O crime do Padre Amaro - Eça de Queiroz

6 - Ensaio sobre a cegueira - José Saramago

7 - O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder

8 - O homem feito - Fernando Sabino

9 - Budapeste - Chico Buarque

10 - Grande Sertão Veredas - Guimarães Rosa


E você? Quais os livros que valeram a pena?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ai

Há tempos não vivia dias como os que tenho passado ultimamente. Uma rotina dura, cansativa, esmagadora: trabalhar, estudar, estudar, trabalhar... Parece que tenho deixado de lado as sandálias, afinal! De repente, é como se os únicos momentos que tenho para relaxar são a hora do banho e quando volto pra casa, ouvindo música ao volante (e isso só quando o trânsito de uma Belém que já está ficando pequena para a quantidade de carros que possui em circulação não me deixa louca)!!
Essa semana, muito me assutou a previsão de uma professora que, em sala de aula, falou que vida acadêmica e vida pessoal definitivamente não podem ocupar o mesmo corpo humano no espaço. "Lista de supermercado e referências bibliogáficas são duas coisas que realmente não co-existem", disse. E eu sou o tipo de pessoa que acredita facilmente no que as outras pessoas dizem... "As meninas que fazem mestrado não se casam, os meninos que fazem mestrado não se casam, e, os seus únicos e melhores amigos passam a ser os livros", profetizou.
Isso me provocou um arrepio na espinha e uma dor aguda nas entranhas que se manifestou em um quase inaudível, mas que em muito sintetizou o que senti: AI!
E eu que sempre tive uma boa relação com os livros...
Começo a apresentar sintomas estranhos: um certo olhar vidrado, um embaralhamento de ideias, esquecimentos múltiplos e constantes, uma diminuição considerável das minhas horas de sono e uma falta de tempo crônica. Tudo isso por causa de páginas e mais páginas, frases e mais frases, parágrafos e mais parágrafos, palavras, palavras, palavras... Teorias diversas, conceitos escabrosos, postulados, formulações... Agora, leio romances por obrigação e não por lazer, e, ao invés de um por mês, cinco por semana.
Foram só duas semanas de aula até agora e já deu pra perceber que, realmente, o negócio não é mole, não! Nada de pudins pelos próximos dois anos...
Portanto, não estranhem se eu andar ausente dessas paragens. O sacrifício será por uma boa causa: uma tentativa, que prevejo extenuante, de pesquisar e entender a blogosfera, meu objeto de estudo. Se as forças positivas do universo assim permitirem, o esforço resultará em uma vasta, interessante e promissora dissertação de mestrado.
Só espero, depois disso, não acabar como uma solteirona seca, com olheiras, rugas, poucos amigos, citando Foucault em qualquer bate-papo de esquina e incapaz de fazer umas inofensivas compras de supermercado...
AI!