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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Blog: uma "nova" literatura?

Está aí uma questão difícil de mensurar. A blogosfera é um mundo a parte dentro do ciberespaço. Nesse mundo, é possível encontrar de tudo, para o bem ou para o mal. O fato é que as próprias características do gênero blog permitem uma diversidade de escrita que não o amarra a nenhuma categoria: jornalística, literária, crítica, opinativa, confessional... As possibilidades são infinitas.

Aliás, há até quem resista em classificá-lo como gênero. A livre expressão e a hibridez de linguagem fazem-no navegar sem uma direção muito bem definida nesse oceano de informações proporcionado pela Internet. No entanto, na necessidade de teorizar sobre o fenômeno da ciberescrita - as diversas que nascem com a explosão das redes sociais que, a cada instante, criam novas galáxias nesse universo virtual -, alguns autores instituem o conceito de e-gênero, os gêneros eletrônicos ou ainda gêneros textuais digitais, onde enquadram-se os blogs.

Os blogs são espaços que permitem uma escrita diferenciada, sem limites, embora fragmentada, e que mescla signos que vão do sonoro ao visual, do imagético ao textual, uma escrita constituída mais do que somente por letras e palavras; composta por bytes, as unidades de informação que formam o código digital e são responsáveis por armazená-lo na Web. Cada byte, contém oito bits e a reunião deles em um sistema organizado de códigos permitem a configuração desse intrincado e irresitível hipertexto, que nos leva por janelas a fora na rede mundial de computadores.

Criei meu próprio blog na rede há quatro anos para ocupar um período de tempo ocioso de minha vida e, hoje, não apenas o meu blog, como a blogosfera de um modo geral, ocupa grande parte de meus afazeres e pensamentos: tenho um objeto de pesquisa. Na verdade, sempre tive o hábito de escrever, seja em diários, agendas ou mesmo em rodapés de livros, cadernos, páginas soltas, pequenos blocos de anotações... Foi fácil, então, me sentir atraída por essa espécie de papel virtual.

Cada novo post é uma parcela incorpórea de um sistema digital que me permite criar um arquivo pessoal na Internet e compartilhá-lo com um público leitor, usuários da rede como eu, que também encontram nesse novo universo uma nova forma de praticar e fruir, de maneira assíncrona, diversos tipos de informação, dentre elas a literária. Foi assim que adiquiri o hábito de "fuçar" a Internet em busca de blogs, cada um com a "cara" de seus autores, mundinhos particulares que refletem a alma, o coração e o intelecto de quem os cria para livre avaliação e interpretação de quem os descobre.

Nessas minhas incursões pela blogosfera, encontrei diversos tipos de textos, alguns capazes até de unir qualidade de estilo e maturidade de escrita a um aguçado senso crítico, tudo aos moldes do hipertexto. Quando optei por fazer dos blogs meu objeto de estudo, minha principal questão era: será que esses textos - que provocam deleite e devir, baseados em fatos reais ou pura ficção, em formato de prosa ou poesia, tantas vezes escritos por anônimos ou desconhecidos, e que ainda assim agregram inúmeros admiradores - podem ser classificados como Literatura?

Se considerarmos o conceito de literatura como a arte de criar e recriar textos capazes de produzir efeito estético e provocar a catarse, a resposta é sim. Mas, e se consideramos a definição de Literatura do ponto de vista canônico, será que a resposta é a mesma? 

Na fase de elaboração do projeto de pesquisa, percebi que, mais produtivo do que tentar definir o que é ou não Literatura é encontrar um caminho para decidir o que torna um texto, em sentido lato, literário. Assim, assumi a missão de investigar qual o lugar da literatura quando entram em cena os novos formatos de escrita possibilitados pelas tecnologias digitais e, dessa forma, especificar as singularidades que esses discursos apresentam no ciberespaço a partir do conceito de webliteratura.

À revelia do questionamento se o que não é canonizado pode ser ou não considerado Literatura, o qual parece eternamente sem resposta, podemos dizer que, na Web, é possível encontrar um “outro” literário que, embora se aproxime, ao mesmo tempo, se distancia dos moldes pré-definidos pelo cânone, uma vez que se constrói a partir da subversão de fronteiras permitida pelo universo virtual e pelo hipertexto.

E, como se configura essa modalidade diferenciada de discurso literário e produção narrativa que se manifesta a partir do surgimento da Internet? Esse é o assunto que pretendo trazer para discussão na mesa "Blog: uma 'nova' literatura?" (dia 4 de setembro, às 15h, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia), que intregará o seminário "Leitura e escritura na Era da Internet", o qual faz parte da programação da Feira Pan-Amazônica do Livro 2011, marcada para o período de 02 a 11 de setembro de 2011.

Se você é fã de blogs e de literatura, como eu, não perca!

:)

Responda você também: na sua opinião, blog é literatura?
 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tempos mais que modernos

Há algum tempo tenho me dedicado a pensar e analisar o papel que a tecnologia desempenha na sua relação com a linguagem. Em visita a Belém, no dia 31 de março de 2011, Lúcia Santaella, uma das semioticistas mais conhecidas e bem pagas nos terrenos nacionais e internacionais da comunicação, letras e artes, me ajudou nessa empreitada falando sobre os "35 anos de convergências tecnológicas", desde o surgimento dos primeiros maquinários provenientes das sucessivas revoluções industriais até o contexto atual, em que a tecnologia digital, do celular, ao cartão de crédito, do notebook ao ipad, passam a regular todo tipo de relação humana ou social que se desenvolve sob a égide da "pós-moderndiade".

Em 1936 Charlie Chaplin já mostrava o desafio que é sobreviver em meio a um mundo moderno e industrializado, quando as máquinas tomam o lugar dos homens e tornam-se suas próprias mãos, mentes e laços. Tempos Modernos é o último filme mudo de Chaplin, que focaliza a vida urbana nos Estados Unidos nos anos 30, imediatamente após a crise de 1929, quando a depressão atingiu toda sociedade norte-americana, levando grande parte da população ao desemprego e à fome. É uma crítica à "modernidade" e ao capitalismo representado pelo modelo de industrialização, onde o operário é engolido pelo poder do capital e perseguido por suas idéias "subversivas".

A cena inicial da película mostra Carlitos, funcionário de uma grande fábrica, entrando em colapso pelo excesso de trabalho e pelo efeito provocado pela produção em série e em larga escala, que padroniza as ações humanas e deixam o cidadão no limiar da loucura e da escravidão. socialista e é levado à prisão, onde aprende a apreciar os prazeres do ócio, chegando ao ponto de sentir-se mais livre ali, atrás das grades, do que se tivesse que trabalhar em fábricas para sobreviver.

Ao ser libertado, de volta à realidade cruel da sociedade industrial caracterizada pela produção com base no sistema de linha de montagem e especialização do trabalho, Carlitos assume a identidade do vagabundo, o flaneur, que vaga a esmo pela cidade, com fome, sem destino, em busca de emprego ou aventuras, olhando as vitrines dos sonhos, dos bens e dos desejos que não pode realizar, ter ou saciar. Ao se apaixonar por uma pobre órfã, o vagabundo pensa em "voltar aos eixos", trabalhar e construir a vida ideal da família burguesa, pautada pelo conforto, a diversão e a alienação de quem tem pão, circo e não se importa com os problemas sociais.

Mas, no mundo moderno, não há lugar para os desajustados...


Se a primeira geração da revolução industrial já sofria tanto com os efeitos e impactos tecnológicos provocados pelas máquinas capazes de produzir mercadorias..., que dirá as gerações mais recentes que advém da era em que as máquinas são capazes de produzir linguagem, traduzir códigos alfabéticos e permitir a comunicação em longas distâncias, quebrando as barreiras do espaço-tempo e criando os domínios da virtualidade!

Nos tempos contemporâneos, as tecnologias digitais moldam uma linguagem que nasce e é própria das redes virtuais...

É pensando nisso que Santaella, em seu livro "Linguagens Líquidas na Era da Mobilidade" (2007), identifica cinco gerações que marcam a cronologia das tecnologias da linguagem e da comunicação: 1) tecnologias do reprodutível, caracterizadas pelos meios eletromecânicos de comunicação em massa, a exemplo do jornal, da fotografia e do cinema; 2) tecnologias da difusão, onde figuram os meios eletroeletrônicos de comunicação de massa, como o rádio e a televisão; 3) tecnologias do disponível, gadgets que fazem surgir a "cultura das mídias", regulada pelos meios digitais de comunicação de massa, responsáveis por hibridizar diversos gêneros e linguagens; 4) tecnologias do acesso, geradas pelo surgimento das redes e pelos avanços da teleinformática, onde estão inseridos o computador, a internet e as mais diversas interfaces gráficas; 5) e por fim, as tecnologias móveis, representadas pelos meios móveis com acesso à rede de informação e comunicação, como os notebooks, blackberries, iphones, ipads e afins.

O fato é que, à medida que a comunicação entre as pessoas e o acesso à internet e à informação, na contemporaneidade, favorecem a interferência e a intromissão do virtual na vida real, como ocorreu na modernidade com o personagem de Chaplin, modificam-se as relações de sociabilidade, o psiquismo, a cognição e, inclusive, a corporeidade dos seres humanos, que passam a associar à máquina a sua razão e maneira de existir, estar, pensar, ser e sentir no mundo. Do ponto de vista da linguagem, as tecnologias móveis e de acesso eternizam a escrita, o som e a imagem em uma proliferação infinita de signos, além de uma sintaxe essencialmente híbrida.

Quem não se ajustar a essas novas engrenagens, definitivamente, estará fora de época...




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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Passeios pelos bytes da ficção

Começa a escurecer e a penumbra toma conta do ambiente, o que me faz apertar os olhos diante da claridade do computador. Chove lá fora e todos já foram embora. Estou sozinha no escritório. Ouço passos. Rumores fugazes no corredor. Olho para trás, mas não vejo nada. Atribuo os sons à minha imaginação fértil, porém cansada, e, volto ao trabalho. Em seguida, sinto algo tocar em meu ombro...

- Aaahhhhh!!!


Mentira, isso é mentira.


Na realidade, estou forçosamente em uma sala de reunião. O assunto em pauta é sacal. Cada minuto completado parece uma eternidade. Olho o quadro com uma paisagem bucólica pendurado na parede e me imagino entrando na tela, navegando num mar de tinta, rumo ao pôr-do-dol.


Mas isso é outra mentia.


Na verdade verdadeira, estou em meu quarto, com uma caneca de café. É dia claro e escrevo no meu blog, enquanto deveria estar lendo uma pilha de textos para o Mestrado. Entretanto, quem garante que a cena é realmente essa?


De fato, estou em frente ao computador, mas não bebo café...


*****


Ultimamente a vida não tem sido interessante o bastante para render posts. O dia-a-dia comum, o ordinário. Eu poderia inventar coisas e entreter meus leitores com a boa e velha ficção, mas eis que minha imaginação não é tão fértil assim. Como diria Umberto Eco, "os mundos ficcionais são parasitas do mundo real" (Seis passeios pelos bosques da Ficção. cia das Letras, 2004).


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

E o verbo se fez byte

Quando o que se quer dizer extrapola as palavras....

É interessante perceber o quanto as linguagens cada vez mais convergem para um hibridismo curioso. Hoje, o que não se pode dizer com palavras se expressa
em imagens, cores e sons.

A poesia, que antes se limitava à escrita, agora, é visual. O sentimento do outro é quase palpável, mas a interpretação permanece como um signo aberto.

Mudam-se os meios, mudam-se as formas, são diferentes as mensagens, diversos os discursos, mas o princípio é o mesmo: comunicar.


O que há no verso da página que eu não posso virar??

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A minha versão dos fatos


Dando certa continuidade ao post anterior, quero falar um pouco mais sobre esse novo, que nem é tão novo assim, espaço de comunicação oportunizado pelo avanço da tecnologia: os blogs. Criados em 1999, os diários on line, como são chamados, ganharam adeptos em todo o mundo, sendo o Blogger.com, mais conhecido como blogspot, o principal expoente do movimento Weblog no planeta, com mais de 15 milhões de usuários cadastrados.

Na minha pretensão de investigar o assunto para um futuro projeto de mestrado, já até aprendi algumas coisinhas interessantes. E, para minha surpresa, esse mês, fui convidada a relatar minha experiência com o Repórter de Sandálias em uma mesa redonda sobre "Blogs: tecnologia, comunicação e moda". Imaginem só, euzinha! A única coisa que sei sobre moda é que não se deve usar top com calça da Gang numa entrevista de emprego. Mas de comunicação, digamos, eu entendo um pouquinho.

Enfim, aceitei o convite. O Repórter de Sandálias não é nem um campeão de acessos e a minha caixa de comentários jamais excedeu a metade de uma dezena (eufemismo para o número 5). No entanto, é um blog e, com ele, dá para se ter uma ideia sobre esse novo estado de coisas que nos permite produzir e consumir informações através da internet. O que estamos presenciando é o nascimento de uma cultura de massa vitaminada pelas potencialidades da World Wide Web. E se você não pode ir contra ela, é simples: junte-se a ela e torne-se um blogueiro você também!

O movimento da maré é exatamente esse. A cada dia, 75 mil novos blogs são criados na rede sobre os mais variados assuntos: jornalismo, literatura, esporte, religião, moda, culinária, cinema, política, artes... uma gama enorme de editorias que deixam qualquer jornalão ou revista de variedades no chinelo (ou sandálias, se preferirem). É nesse sentido que eu diria que os blogs são espaços, sobretudo, democráticos porque permitem a qualquer um ter o seu quinhão no ciberespaço e a todos terem qualquer tipo de informação, podendo, inclusive, comentar sobre elas (menos no blog do presidente Lula, onde não há espaço para comentários do leitor: medo de ser criticado, talvez?!).

Ter ou ler um blog, portanto, significa tornar-se público, seja como produtor seja como consumidor da informação, além de estabelecer um canal de interatividade e interconexão de saberes, ideias ou pontos de vista, que podem ser compartilhados ou contrariados, por internautas do mundo inteiro (vá lá, pelo menos do Brasil, quiçá de Portugal: acesse aqui o mapa de acessos do Repórter de Sandálias).

Sem querer antecipar tudo o que eu pretendo falar durante a mesa-redonda para não ser colocada a prova por universitários sedentos de conhecimento (minha Nossa Senhora das mãos suadas, voz engasgada e joelhos tremelicantes há de me ajudar!), ouso dizer que os blogs, hoje, oferecem-se como alternativas de divulgação aos padrões engessados e, às vezes, inatingíveis, "ofertados" pela grande imprensa e a mídia em geral.

Mas, cuidado! Embora a ferramenta (ou canal) possibilite a parcialidade e o relato subjetivo da realidade, é preciso estar atento ao feeling de abordagem para não se aventurar com textos (ou posts) por demais egocêntricos. Se você não é a Luly, a Glória Kalil ou o Paulo Coelho (grande coisa!), concentre-se em "blogar" sobre assuntos que avalie como sendo de interesse público. Ainda que seja você a primeira pessoa do seu texto, é o leitor que sempre tem razão.

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A mesa-redonda "Blogs: tecnologia, comunicação e moda" faz parte da programação do Café com Moda, que ocorrerá na Unama da Alcindo Cacela, na próxima segunda-feira, dia 14, às 19h. Não apareça! Rsrsrrs!