quarta-feira, 22 de abril de 2009

Por onde eu ando

Que o mundo é mau, excludente e dicotômico, todo mundo já sabe. Isso é óbvio! O problema é que o óbvio nem sempre é percebido. Há uma cegueira ética na humanidade, cujos valores mais básicos estão sendo esquecidos ou substituídos pelos ideais da sociedade de consumo.

Eu mesma, neste exato momento, falo sobre desigualdades sociais enquanto desfruto da boa atmosfera do meu quarto e do conforto proporcionado por um roupão bem quentinho e umas sandálias macias (piadinha interna: só ainda não tem o Vaio e o vinho... :p, quem sabe um dia!).

Não quero, com isso, chamar a atenção para a natureza hipócrita e contraditória inerente a todo o ser humano (quem nunca usou máscaras?), mas sim tentar fazer uma reflexão sobre o fato de que a evolução da sociedade é inversamente proporcional ao desenvolvimento de seus valores. Quanto mais civilizado o homem, mais selvagem se torna seu ego.

Por que perder tempo com quem não tem nada a te oferecer? Por que tratar bem quem você nem conhece? Por que dar bom dia no elevador quando você pensa "Poutz, é segunda-feira, 7 da matina, tô de ressaca, tá chovendo, tem uma pilha de trabalho atrasado me esperando e eu ainda tenho que ser simpática com a vizinha fofoqueira"? Estranho mesmo, nos dias de hoje, é encontrar alguém que se comporte de forma diferente disso.

Eu sinceramente até queria levar a vida de forma mais leve e alegre. Às vezes até tento ser gentil. Outro dia estava eu na sala de aula, esperando professor, turma lotada, todo mundo quieto. Em uma inexperiente tentativa de socialização, olho pra colega ao lado e tenho a sensação de reconhecê-la de outros ambientes não estudantis. Apesar de ela parecer ocupada mexendo em seus papéis, arrisco uma palavrinha: "Você é a fulana, não é? Namorada de Cicrano? Lembro de você de tal lugar...". O contato interpessoal morre instantaneamente após o olhar fulminante que ela me dá como quem se pergunta: "Quem é essa inxirida que diz que conhece o meu namorado?". E depois ainda levo uma esculhambação do namorado sob a acusação de ter plantado discórdia no namoro alheio! Banho de água fria...

O fato é que as pessoas do século XXI são pessoas sérias. Isoladas no alto de suas torres de marfim (entende-se aparelhos de MP4, iphones, ipods, notebooks e afins), as únicas gentilezas que conhecem são as palavrinhas mágicas "por favor", "com licença" e "obrigado", que quando ditas saem no piloto automático, e pensam que ao pronunciá-las já praticaram suas cotas diárias de solidariedade e fraternidade... Não precisam se misturar com reles mortais que, apesar de tudo, ainda tentam evitar a apatia.

Há quem me chame de introspectiva, devo admitir, mas acontece que sou produto do meio em que vivo. De tanto ser ignorada, me fechei em mim mesma e aprendi a ignorar também. Não acho isso bonito, só que toda vez que tento agir de forma diferente levo um tapa na cara dos egos selvagens das pessoas sérias.

Por isso, tenho que "evoluir" junto com a sociedade e ser uma pessoa séria. Eu sou séria. Sério! Eu to falando sério... até porque não sei ser engraçada, meu humor é ácido, o dramatismo é meu defeito de fábrica e se alguém me olha feio, fala grosso comigo ou me abandona, eu choro.

O fato é que, eu que sempre critiquei o meio termo e as coisas mornas, agora, me descubro ali, exatamente no ponto intermediário desse mundo feito de extremos. Não sou gentil, mas também não sou apática. Ando por entre as flores e os cogumelos... ora sou a lagarta, ora sou a borboleta, mas na maior parte do tempo, prefiro me manter no meu casulo. Nesse meu mundinho particular, ainda acredito em valores considerados ultrapassados por muita gente, porém, nem sempre faço questão de colocá-los em prática.

*****

E mais uma vez citando um pequeno principezinnho:

"(...)

- Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão contas. E o dia todo repete como tu: 'Eu sou uma pessoa séria! Eu só faço coisas sérias!"' E isso o fez inchar-se de orgulho. Mas ele não é uma pessoa; é um cogumelo!
- Um o quê?
- Um cogumelo!

(...)"

Quem, hoje em dia, cultiva jardins em estruturas de concreto??


*****

Ufa! Que alívio, o romantismo se foi...

:p

Será???

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O príncipe e a raposa (Ressignificações)

Como compreender que uma história aparentemente tão ingênua seja comovente para tantas pessoas?

A experiência de mundo pode ser substituída pelo signo. E a Literatura tem como função colocar o signo em movimento com a necessidade de dar forma, sentido e significação à realidade e às coisas da vida.


*****

- Que quer dizer "cativar"? - perguntou o príncipe.
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa.
- Significa "criar laços"...
- Criar laços?

- Exatamente - disse a raposa.
- Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem
mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- Nada é perfeito - suspirou a raposa.

Mas a raposa retomou o seu raciocínio.


- Minha vida é monótona. eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. Eu amarei o barulho do vento no trigo...


A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:


- Por favor... cativa-me! - disse ela.

- Eu até gostaria - disse o princepezinho -, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. - Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas onde vendem amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!

- Que é preciso fazer? - perguntou o pequeno príncipe.

- É preciso ser paciente - respondeu a raposa. - Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto...


No dia seguinte, o príncipe voltou.


- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora - disse a raposa. - Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração...


Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.

- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...

- Quis - disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! - disse ele.
- Vou - disse a raposa.

- Então, não terás ganho nada!
- Terei, sim - disse a raposa - por causa da cor do trigo.

(O pequeno príncipe. Antoine de Saint-Exupéry)

*****
Definitivamente perdi o foco!

Essa coisa de estudar Literatura ta me deixando boba e romântica. Mas quem nunca viveu algo parecido com isso um dia?

Vai passar, vai passar.... :p



quarta-feira, 15 de abril de 2009

Déjà vú* (ou Monólogo do meu Eu-Lírico)

ATO FINAL
O início do fim

(Silêncio)

(Ela suspira e liga a máquina. O monitor acende. Ela aperta os olhos para que suas pupilas se adaptem à luz da interface. Mais um suspiro antes de experimentar a familiar e reconfortante sensação de pressionar as teclas do teclado e materializar seus pensamentos e sentimentos em desabafos textuais eletrônicos....)

Eu-lírico:
- A vantagem é que, pelo menos, dá pra economizar o que eu gastaria com a terapia!

Cortinas fechadas: (som do "tec-tec" no teclado)


*****

Esse é o meu momento individual de ver as coisas juntas.

Em uma perspectiva um tanto quanto non sense, cada vez mais acredito que os seres humanos são narradores-personagens de suas próprias histórias, que diariamente constroem suas vidas a partir de um conjunto de expectativas e decepções intercaladas que se materializam e, depois, se manifestam como reação às diversas pressões sociais a que são trivialmente
submetidos.

Isso supõe que a vida cotidiana é atravessada por uma miríade de anônimas cenas teatrais, em que desepenhamos dezenas de ignorados ou inconscientes papéis. Em muitos momentos, acabamos por protagonizar o conflito como antagonistas de nós mesmos e de tudo em que sempre acreditamos, vivendo situações que se cristalizam, como aquelas que são previamente traçadas, reguladas e automatizadas, conforme manda o figurino.

Criamos nossas rotinas, estabelecemos nossos valores, projetamos nossos sonhos e significamos o que nos proporciona prazer e conforto como representação quase que ritualística de nossa forma de pensar e agir no mundo. Não sabemos lidar com imprevistos e relegamos tudo que é contrário ou que ataca a nossa cena cotidiana ao gênero das pequenas tragédias.

O fato é que, à mercê de heróis ou vilões, a vida é mesmo uma grande narrativa, seja ela teatral, literária, cinematográfica e até jornalística. Em alguns momentos é trágica, em outros romântica, quiçá, cômica, mas é narrada, sim, por nós mesmos, embora suscetível a manipulações.

A essência do ser humano é realmente saber atuar em diferentes cenários, procurando identidade nas mais diversas formas de representação e dando vazão a um eu-real que se confunde com um eu-fictício em um ritmo acelerado e cíclico.


Hoje, eu vivo, dramatizo e represento minha própria realidade. S
ou muito mais personae de minha própria existência do que posso admitir.

(Será que fez sentido? Acho que ando perdendo o foco.)

*****

PRIMEIRO ATO
O Recomeço

Cortinas abertas: (Palco escuro. Som do despertador quebra o silêncio)

(Ela abre os olhos e desliga o alarme do relógio, que marca pontualmente 6h15 da manhã. Suspiro, bocejo, suspiro...)

Eu-lírico:
- Mais um dia pra viver! O tempo reporá tudo em seu lugar.

*****

*Déjà vú é usualmente pensado como uma impressão de já ter visto ou experimentado algo antes, que aparentemente está a ser experimentado pela primeira vez.

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quinta-feira, 19 de março de 2009

Uma trajetória de amor ao texto*

Lembro-me de quando ainda mal sabia ler e escrever. Em uma investida curiosa para desvendar os mistérios da Língua Portuguesa, o que mais me chamava atenção na minha infância precoce, mesmo em histórias em quadrinhos e livros com gravuras, eram aqueles sinais gráficos encadeados que formavam linhas retas em perfeitas combinações silábicas. Demorei pouco para, a partir daí, apreciar não somente a palavra como estrutura da escrita, mas também, e principalmente, como um símbolo dotado de sentido, rico em significante e significado, pequena parte de um todo muito mais complexo. Foi dessa descoberta da língua como palavra e da palavra como recurso semântico, sonoro e formal que nasceu a minha relação com o texto, seja como manifestação lingüística, seja como forma de interação cultural ou meio de expressão e comunicação.
Com o tempo aprendi que o texto poderia ser escrito ou oral, construído com palavras ou até mesmo de maneira não-verbal. Meu interesse, então, foi crescendo e, logo, uma simples curiosidade de criança, tornou-se aspiração profissional. Assim, deparei-me com o primeiro grande dilema da minha carreira: a escolha do curso universitário. Sabia que a minha paixão pela língua, a facilidade com a escrita e a admiração pelos grandes escritores me impulsionavam ao curso de Letras, mas a minha vontade de ir além da estrutura lingüística, da forma e do conteúdo e entender o processo de criação do texto enquanto mensagem, compreendida como instrumento de sociabilidade, levou-me a optar pelo curso em que melhor me permitiria estudar os fenômenos de produção e transmissão de sentido: Comunicação Social.
Dessa feita, iniciei meu percurso acadêmico no ano de 2003 como estudante de Comunicação. Encontrei muitas teorias por meio das quais pude estabelecer a relação que buscava no que consiste em estudar o texto como fenômeno sócio-comunicativo, como as Teorias da Comunicação, Teorias da Cultura e do Contemporâneo, Análise do Discurso. Na prática, por meio das disciplinas laboratoriais, pude continuar exercendo a escrita e, assim, desenvolver minha predileção pelo jornalismo impresso e pelas técnicas de construção do discurso textual enquanto produto midiático com finalidade comunicativa. Infelizmente, a grade curricular do curso não me permitiu o contato com as particularidades do texto e da Língua Portuguesa enquanto fenômenos lingüísticos. Ainda assim, os estágios aos quais candidatei-me e ingressei sempre estiveram relacionados com a produção, redação e edição de textos.
Rapidamente, então, vi por encerrados os quatro anos de duração do curso e, em 2007, obtive o título de Bacharel em Comunicação com habilitação em Jornalismo. E, valendo-me do motivo que levou-me a optar pelo curso de Comunicação ao de Letras, minha pesquisa de conclusão de curso se propôs a abordar a maneira como o campo dos media, na contemporaneidade, interfere nas formas de sociabilidade e comunicabilidade, modificando as noções de espaço público e privado, bem como ocupando lugares simbólicos que não são aqueles próprios de sua natureza, na tentativa de oferecer ao sujeito social possibilidades de se fazer subjetivamente representado (e/ou projetado) a partir dos serviços prestados através de seus produtos.
Ao encontrar-me graduada diante dos desafios do mercado de trabalho no campo da Comunicação Social, vieram-me à mente questionamentos acerca de meu papel como profissional. Foi quando percebi o quanto a minha dedicação à técnica me privou da reflexão teórica e me afastou da academia. Estava eu formada, com experiência restrita e exercendo um jornalismo pouco comprometido com a função social de informar, educar e entreter, inerente à comunicação enquanto ciência. Decidi, então, abandonar a segurança da carteira assinada e aventurar-me em novas experiências. Trabalhei como free lancer em diversas assessorias de comunicação, institucionais e empresariais, em agências de relações públicas e até jornais de grande circulação local. Nesse ínterim, estudava para prestar concursos públicos que ofertassem vagas para jornalistas.
O meu desejo em poder exercer minha profissão de modo a fazer jus à função social de informar, educar e entreter, mais do que a de vender, que é a máxima do apelo midiático do século XXI, fez-me optar sem sombra de dúvida pela Comunicação Institucional voltada à divulgação científica e extensão universitária. O fato de estar novamente no ambiente acadêmico, portanto, inspirou-me a buscar aperfeiçoamento científico e qualificação profissional, como uma oportunidade de resgatar minha paixão pelo texto e encarar a face do fenômeno lingüístico a que me privei de estudar ao optar pelo curso de Comunicação. Afinal, a Língua Portuguesa é a matéria-prima dos textos que diariamente minha profissão me requer produzir.

*****
*Meu único e verdadeiro amor ;)

Trechos do memorial descritivo que submeti à aprovação para ingresso em curso de especialização em Língua Portuguesa... Já aproveitando para manifestar aqui um protesto sobre o fato de não haver disciplina voltada para essa questão, nem em caráter instrumental, na maioria das grades curriculares dos cursos de jornalismo das universidades brasileiras.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sentidos x Matéria

Vivemos num tempo em que os seres humanos são só matéria.

Alguns são apenas rostos, figuras sem expressão, estampas desbotadas, que se não incomodam, não fazem a mínima diferença. Outros, a maioria, são apenas corpos, um composto de tecidos, ossos, músculos... físico, organismo pulsante, de células táteis, matéria concreta, sangüínea, palpável... Às vezes, mas desejável do que necessária.

Nesse tempo em que vagam pelas ruas muitos rostos sem corpo e tantos mais corpos sem rosto, estranho mesmo é ver alguém inteiro, com rosto, corpo, alma e coração. Ser humano, nos dias de hoje, é ser civilizado, é saber viver em sociedade e interagir com metades perdidas, é se sentir sozinho no meio da multidão.

Ser humano, em nossos tempos, é ignorar a desgraça alheia, é se sentir invisível mesmo sob a luz de holofotes, é amargar em silêncio sofrimento, medo e desespero. Não sei se sou mais rosto ou se sou corpo. O fato é que já perdi a minha alma e o meu coração há muito tempo.

Não sou de papel, mas amasso e rasgo com facilidade, me dissolvo quase sempre em lágrimas de crocodilo, pois também me separei da minha verdade. Em matéria, sou humana. Em essência, solidão. Em sentimento, sou só palavras... efêmeras, descartáveis, a maior parte jamais lida.
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Filosofia de boteco: Empédocles dizia que na natureza atuavam duas forças, por ele chamadas de amor e de disputa. O que une as coisas é o amor; o que as separa é a disputa.
E mais uma vez, a disputa se repete; a eterna disputa entre a fé e a razão, entre o amor e o poder. Esse discurso já deveria estar obsoleto!!