
Em uma região com tão poucas políticas públicas voltadas para o fomento da cultura e lazer, qualquer evento gratuito de amplo alcance é sucesso de plateia. Tudo bem que a Feira movimenta ideias, põe conhecimento em circulação, mas nem tudo ali é acessível, a não ser os best sellers em preço promocional e os shows de cantores populares ao ar livre que só reproduzem o que está na mídia.
Esse pode até ser um olhar pessimista, mas é verdadeiro. Foi-se o tempo, talvez nas suas primeiras edições, que a Feira trazia para cidade os grandes escritores e as grandes obras. Agora, eles são simples pano de fundo para uma estratégia comercial que não passa de uma imensa celebração à cultura de massa, com alguns poucos momentos que valem a pena.
Posso estar sendo apocalíptica ou conservadora demais... O fato é que hoje fui visitar a Feira e participei do bate-papo sobre literatura com o escritor Mário Prata. Fiquei um pouco decepcionada, não vou mentir, quando ele confundiu várias vezes Belém com "Natal" e que achava um absurdo jovens terem que ler "O Cortiço", do Eça de Queiroz, como leitura obrigatória para o vestibular. Tudo bem errar o nome da cidade, isso acontece, embora várias vezes seja demais. Mas, "O Cortiço", é do ALUÍZIO DE AZEVEDO!!!
O bate-papo foi um tanto quanto bizarro. Além de "ralhar" com crianças que riam na plateia e discutir com o público qual a posição sexual preferida entre homens e mulheres o que, confesso, rendeu umas boas risadas, ele disse que a literatura no vestibular é NOCIVA.
É verdade que ainda há muito a ser feito para conquistar a simpatia dos jovens vestibulandos às leituras que não deveriam ser feitas por obrigação e sim por prazer, mas como fazê-los ter acesso aos clássicos se estão rodeados pela cultura de massa???
Rever os conteúdos programáticos dos vestibulares para que passem a cobrar leituras, ainda que canônicas, mais agradáveis, menos densas e mais adequadas à realidade dos jovens é um fato que não só o Mário Prata já percebeu, como milhares de pedagogos, professores e escritores também o fizeram. A verdade é que não dá para trocar o Machado de Assis pela Stephenie Meyer, autora de "Crepúsculo", porque com ela não se aprende Língua Portuguesa!!! E ainda corre-se o risco de despertar nos adolescentes predisposições sádicas a hábitos de vampirismo...
O Mário Prata é um escritor aos moldes da Stephenie Meyer. Ele escreve crônicas e romances por encomenda. Há inovação nas suas práticas e democratização da informação, pois ele escreveu um romance inteirinho, "Os anjos de badaró", tendo como suporte um blog e uma webcam. Isso é um ponto positivo. Mas, para mim, não pareceu digno quando ele comentou sobre as vantagens de receber $$ antecipadamente para escrever trillers policiais que simplesmente divertem o público, receber $$$ para participar de eventos como o da Feira Pan-Amazônica do Livro e divertir o povo com uma imagem excêntrica, receber $$$$ para fazer do seu momento de produção literária um reality show eletrônico e divertir os internautas...
A imagem que Mário Prata me passou foi a de um escritor contemporâneo, totalmente adaptado aos padrões da Indústria Cultural. Um autor que se afasta da ideia de "autor romântico", que nasceu para escrever, pois ele mesmo revela que é matemático e, antes de se "descobrir", escritor trabalhava como economista, até que as habilidades com os números o fizeram perceber que estar entre os mais lidos pode ser um negócio bastante rentável se acopanhar as exigências da mídia.
Tudo bem, os escritores precisam sobreviver, mas, dessa forma, a Literatura perde a magia... Se os escritores não conservarem a aura à palavra escrita, não é a indústria de massa que o fará. Eu só tenho pena da nova geração, que poderá nunca entender a diferença entre Stephenie Meyer e Machado de Assis, pelo menos não até que os próprios escritores valorizem sua arte ao invés de fazer dela mera mercadoria.