quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Breve instante de luz

Um dos filmes mais belos que assisti em uma das tardes desbotadas do último mês de julho foi "O Escafandro e a Borboleta" (Le Scaphandre et le Papillon/França 2007). Um filme que me fez pensar.

Sempre fui sacaneada pelos meus amigos por preferir os filmes das prateleiras de Oscar, Cult, Estrangeiros... enfim, sabe aqueles filmes que ninguém escolheria só pelo nome ou pela capa? Eu vou certeira neles. Não sei bem ao certo porquê. Não sou adepta das sessões de filme alemão, preto e branco e sem legenda: aqueles típicos cinéfilos com óculos de armação preta e que assistem ao filme coçando o queixo e acenos afirmativos de compreensão, como me acusam de ser. Não sou assim,. Apenas aprecio os filmes que trazem em seus roteiros mais do que explosões, carros de corrida, super heróis e os rostos bonitos de Hollywood.

"O Escafandro e a Borboleta" é um filme premiadíssimo, considerado cult, francês e baseado em uma história real. Calma, calma... É sério!! Apesar de ter todas as características que compõem o típico estereótipo das "películas" preferidas da turma dos pseudo-cults, o filme é realmente muito bom. Não tenho hábito de opinar sobre cinema aqui no blog (e isso está longe de ser uma crítica), mas não posso deixar de recomendar aos amantes da sétima arte que apreciem esse filme em particular, que é original do início ao fim. A começar pelo roteiro: imagine um ser humano prisioneiro de seu próprio corpo! Após sofrer um derrame cerebral, o personagem principal, Jean-Dominique Bauby, um editor de uma famosa revista francesa, fica paralisado dos pés a cabeça e só consegue mover o olho esquerdo, um caso raro da Síndrome do Encarceramento (Locked-in Syndrome).

Sim, o filme é uma lição de vida, um soco no estômago, uma história de superação... mas não cai no lugar comum. Inicialmente, Bauby se recusa a aceitar seu destino, no entanto, com o passar do tempo ele percebe que apesar de ter o corpo estático, sua memória e imaginação continuam em movimento e o leva a conhecer coisas, pessoas, sentimentos e lugares que jamais conheceria no estilo de vida e com os valores que prezava antes do fatídico dia em que perdeu-se dentro de si. Poético, não?! Tudo isso é contado por meio de um efeito de câmara subjetiva em que o espectador vê com os olhos do protagonista, enquadramento de cenas e edição de imagens impressionantes, além de um trilha sonora da melhor qualidade, é claro (adoro trilhas!).

Mais eis o que mais chamou minha atenção sobre o filme, tendo em mente que a história é verídica: Jean-Dominique Bauby viveu por um longo tempo sem nem ao menos poder falar, encerrado em um verdadeiro casulo. Para se comunicar, ele piscava o olho esquerdo uma vez para dizer "sim" e duas vezes para dizer "não" e, mais tarde, utilizou um alfabeto em ordem de pronúncia das letras. Ele piscava a cada som que lhe servisse, formando palavras letra por letra, sempre com a ajuda de intérpretes. De palavras, chega a frases e das frases aos parágrafos até ditar um livro inteiro: as suas memórias, que dão nome ao filme.


Imaginem! Escrever um livro com piscadelas! A capacidade de comunicação do ser humano nas mais impensáveis situações é realmente impressionante. Essa necessidade de se comunicar é tão intensa que, mesmo na solidão, o homem é impulsionado a exteriorizar divagações interiores, se não em voz alta, o que o levaria a falar consigo mesmo, escrevendo, o que lhe permite documentar suas reflexões e sensações. Hoje, as maneiras de “falar” ao outro são tantas, que não conseguimos imaginar o mundo sem a linguagem ou sem o texto literário, como forma de expressão da linguagem. Um dia desses, ainda haverei de me tornar borboleta e escrever meu livro. Enquanto isso, de post em post, já posso sentir o cheiro da liberdade que me trarão as asas.






Assista também:


Scoop - O grande furo (Sinopse / Trailler)

Desejo e Reparação (Sinopse / Trailler)

Juno (Sinopse / Trailler)

Good bye, Lenin (Sinopse / Trailler)

Persépolis (Sinopse / Trailler)

5 comentários:

Lidiane disse...

Jéssica, esse filme é realmente maravilhoso, comovente! Um dos melhores que eu já assisti. Adorei rever um pouco dele por meio do teu texto. Muito bom!
Bjs

Anônimo disse...

Jéssica, vi este filme no RJ nas férias de 2008. Não chegou a passra em belém, queria revê-lo. é lindo! da sua lista, tb assisti Desejo e Reparação, Juno e Adeus Lenin... inclua aí o Casamento de Rachel, que assisti ontem... história e câmera (são os olhos dos personagens em muitas cenas) ótimas!!! bjs Fabíola

Anônimo disse...

Jessy,

Não sei sua opinião, porém acho JUNO descabivel de elogios. Uma narrativa fraca e trata um tema de maneira inversa. Adultos com atitudes de garotos e garotos com atitudes de adultos. Totalmente fora de contexto.

Bjs

MNeto

jennyfer_carneiro disse...

nunca ouvi falar desse filme... mas parece legal... =]

Repórter de Sandálias disse...

Oi Manoel

a grande sacada de Juno é exatamente essa dos papéis interpretados de maneira inversa. O filme fala de um tema bastante comum: gravidez na adolescência, mas de maneira extremamente realista e original. Fala de assuntos que são tratados como "tabu" pela grande maioria conservadora da sociedade, mas, para isso, usa uma linguagem leve e descontraída, sem falso moralismo, sem atrelar os personagens a conflitos norteados pelas já famosas convenções sociais das do tipo de que "adolescentes não podem fazer sexo", "casais que não se amam mais não podem se divorciar", "mães solteiras não podem criar filhos", "os pais devem castigar filhos que saem da linha"... Acho que o filme traz uma mensagem positiva de que, ainda que indesejáveis, certas coias na vida acontecem inevitavelmente e por mais que possa ser chocante para muita gente, algo que poderia ser um grande problema pode ser resolvido de forma racional se forem deixados de lado os preconceitos.