quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Metrópole em desconstrução

Entre o corredor de mangueiras paraense e o corredor de concreto paulistano, não preciso nem dizer qual deles eu prefiro. Estas, sem dúvida, são as férias mais estranhas que já tive. São Paulo é uma metrópole em desconstrução. Sabe o estereótipo das milhares de pessoas andando apressadas de um lado para o outro, os rostos tristes e cansados no metrô, os arranha-céus e o amanhecer cinza e carregado que compõe a imagem mental da maioria quando se refere à capital brasileira do consumo? São paulo é exatamente assim.


A única coisa que se faz nessa cidade são compras, além do disfrute de uma vida boêmia até divertida, porém vazia, que resulta nas olheiras dos rostos tristes e cansados que se vê no tal do metrô, formando um ciclo autodestrutivo, principalmente se somado aos intervalos de almoço que mal permite tempo para um fast food, sem falar nas horas gastas no trânsito, seja em congestionamentos monumentais, seja simplesmente se transportando, pois para todo lugar que se vai é preciso, no mínimo, andar três quadras de ladeiras, pegar dois ônibus e um metrô.

O custo de vida aqui é altíssimo, não se gasta menos de R$ 15 em um almoço que não te faça estar esfomeada novamente às 15h. E isso não é a toa. As pessoas trabalham como condenadas para poder arcar com esse custo e, claro, poder comprar mais e mais. Roupas, sapatos, bolsas, relógios, perfumes, cosméticos, óculos escuros, óculos de grau, eletroeletrônicos de todo o tipo, cortador de pêlo de nariz e orelha, raquete matadora de insetos, soutian com peito falso de silicone... tudo se encontra na Rua 25 de Março e não apenas nela, são várias as ruas onde, nessa cidade, apenas se vende e apenas se compra... prato cheio para os chineses que vêm comercializar aqui os made in da vida e faturar com consumidores enlouquecidos. Tudo é muito barato, tudo em liquidação, as melhores marcas e as imitações das melhores marcas, cópia da cópia, simulacro do simulacro com 50% de desconto. E lá está você caindo na armadilha!

Aqui as pessoas acumulam coisas e são movidas pela ilusão do consumo, o fetiche da posse e o prazer do ter e não dividir com ninguém. E a desigualdade social é gritante: a cada esquina um mendigo, dois, três, famílias inteiras fazendo residência nas calçadas e praças do centro mal cuidado, quando não são jovens entregues ao crack. Qual a outra opção, vender falsificados na 25 de março? Cuidado com o rapa!


Mas dentre tantos pontos negativos, existem os positivos. Não há tanto lixo nas ruas, os motoristas de ônibus respeitam as paradas e os passageiros e, em vários bairros, podemos encontrar parques ambientais de acesso gratuito como oásis em meio ao maciço de concreto. As pessoas também, pode-se dizer, vlorizam uma boa leitura. Além de turistas como eu, crianças, aposentados, praticantes de exercícios físicos, o que se vê nos parques em dias de semana são pessoas lendo! Sem falar na famosa Livraria Cultura, um paraíso para qualquer amante das letras: três andares de títulos de todos os gêneros e todas as ciências, para t
odas as idades e todos os gostos. A arte também ganha destaque, há muitos museus com bom acervo e bem visitados, teatros e cinemas com infinidades de espetáculos e filmes em cartaz.

No entanto, faz dez dias e já tive a minha overdose do ritmo alucinado de São Paulo. O pior é que ainda faltam mais cinco antes de poder voltar pra casa, matar a saudade dos meus, sentir o cheiro de rio e a atmosfera de uma metrópole provinciana que só se encontra na Amazônia. Já fiz apologia à minha terrinha em outros posts, mas nunca me senti tão paraense, não posso deixar de dizer que é só no Pará que se inala o aroma do tacacá pelas esquinas, se toma açaí na tigela com farinha de tapioca e não com energético, se demora apenas (isso mesmo, "apenas" se comparado a São Paulo) 30 minutos, no máximo, em engarrafamentos e o mais importante de tudo: pode-se ver o sol se pôr no horizonte e não por entre prédios e fumaças.

Tive experiências interessantes aqui, sobretudo diferentes das minhas costumeiras (nunca me senti tão fútil), me diverti e vivi bons momentos, mas volto para casa com a felicidade que sei que causam os reencontros e, claro, com o cartão de cédito estourado... Mas nada como um fim de tarde na minha pacata Belém para curar todos os males. Meu amor, já estou chegando!!!


"Belém, Belém, és minha bandeira, és a flor
que cheira no Grão Pará"


=)

5 comentários:

Hugo Pessoa de Baraúna disse...

Interessante, bem escrito... mas preconceituoso. Uma coisa que aprendi é que não podemos conhecer um lugar de verdade apenas como turista, passando 5, 15, ou 30 dias. Só se conhece um lugar, as pessoas e tudo mais, quando se vive nele.

De todo modo, gostei do modo que escreveste.

Eduardo Santos disse...

Ei, não passou pelo Rio não?! Que pena, aposto que ia gostar. Também temos mendigos, consumismo e caos urbano, mas ainda conseguimos ver o Pôr-do-Sol no horizonte.
Como disse a Dorothy em o Mágico de Oz "não há lugar como o nosso Lar".
Bom retorno para a sua Belém.
Abraços!

Anônimo disse...

O bom de se viver tudo isso é que temos um lugar aconchegante pra voltar. Seja bem-vinda.

Andréa Mota disse...

Interessante pensar em belém, em chão estrangeiro. Dá uma nostalgia mesmo. Gostei muito da leveza da descrição. Senti o cheiro do patchulin a cada parágrafo.

=)

Saudades menina. Precisamos sair pra colocar o papo em dia.

Quanto ao que escreveste no blog, acho que o fechar de olhos é bem mais pessimista que sonhar. Talvez não acordar. Não é papo de suicida, mas de alguém que já gastou muito os olhos abertos ou em sonhos.

o/

Repórter de Sandálias disse...

Estranho teu ponto de vista, porque eu sonho de olhos bem fechados...